A vitamina D tem ganhado destaque como um nutriente com papel imunomodulador relevante na saúde intestinal. Evidências recentes apontam que sua deficiência pode estar associada à piora do quadro inflamatório nas doenças inflamatórias intestinais (DII), como a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa.
Este artigo aborda os principais mecanismos pelos quais a vitamina D atua no intestino e sua importância no manejo clínico das DIIs.
Ação imunorregulatória da vitamina D
A vitamina D atua como uma molécula imunorregulatória. Isso significa que ela exerce influência sobre o sistema imunológico, regulando a atividade de células inflamatórias e promovendo mecanismos anti-inflamatórios — especialmente na mucosa intestinal.
Três mecanismos principais explicam sua ação no contexto intestinal:
1. Fortalecimento da barreira epitelial
A mucosa intestinal funciona como uma barreira seletiva, impedindo que substâncias potencialmente nocivas atravessem o epitélio e entrem na corrente sanguínea.
A vitamina D estimula a produção de proteínas de junção epitelial e peptídeos antimicrobianos, promovendo a integridade dessa barreira.
Com isso, reduz-se a permeabilidade intestinal e o risco de inflamação crônica.
2. Modulação do sistema imunológico intestinal
A vitamina D interage com receptores presentes em diversas células imunes intestinais, como macrófagos, células T e células dendríticas. Sua ação favorece o perfil anti-inflamatório, inibindo a produção de citocinas pró-inflamatórias (como TNF-α e IL-6) e estimulando a síntese de citocinas reguladoras, como a IL-10.
Esse equilíbrio é crucial para pacientes com DII, cuja resposta imune encontra-se desregulada.
3. Influência sobre a microbiota intestinal
Estudos indicam que a vitamina D também afeta a composição da microbiota intestinal. Sua presença adequada favorece o crescimento de bactérias benéficas e ajuda a prevenir a disbiose — desequilíbrio associado à piora da inflamação intestinal.
4. Evidências clínicas nas DII
Há uma correlação entre níveis séricos de vitamina D e a atividade inflamatória em pacientes com DII. Valores baixos de 25(OH)D estão associados a maior risco de recaídas, internações e complicações.
Um estudo publicado em 2018 investigou pacientes com retocolite ulcerativa ativa que receberam suplementação com 40.000 UI de vitamina D3, uma vez por semana, durante oito semanas. O resultado foi uma redução significativa nos níveis de calprotectina fecal, biomarcador de inflamação intestinal.
Esses achados reforçam a importância de manter níveis adequados de vitamina D como parte da estratégia de controle da inflamação.
Valores de referência
A classificação dos níveis séricos de 25(OH)D é a seguinte:
-
Deficiência: < 20 ng/mL
-
Insuficiência: 20–30 ng/mL
-
Suficiência: ≥ 30 ng/mL
Para pacientes de risco, como as DIIs, recomenda-se manter os níveis entre 30 e 60 ng/mL, conforme diretrizes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Estratégias de suplementação
A forma mais indicada de suplementação é a vitamina D3 (colecalciferol), que apresenta melhor biodisponibilidade em comparação à D2.
Recomenda-se utilizar apresentações em cápsulas gelatinosas ou gotas oleosas, preferencialmente administradas após refeições que contenham fontes de gordura boa — como azeite de oliva, oleaginosas ou abacate — para otimizar a absorção, já que a vitamina D é lipossolúvel.
Evita-se o uso de comprimidos secos, devido à menor eficácia de absorção.
Conclusão
A vitamina D é um nutriente essencial no contexto das doenças inflamatórias intestinais. Sua ação sobre a barreira epitelial, o sistema imunológico e a microbiota intestinal justifica a recomendação de monitoramento regular e, quando necessário, a suplementação individualizada.
Manter níveis adequados de vitamina D pode contribuir para o controle da inflamação, redução de sintomas e melhora da qualidade de vida em pacientes com DII.
Referências
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VERNIA, Filippo; VALVANO, Marco; LONGO, Salvatore; CESARO, Nicola; VISCIDO, Angelo; LATELLA, Giovanni. Vitamin D in inflammatory bowel diseases: mechanisms of action and therapeutic implications. Nutrients, Basel, v. 14, n. 2, p. 269, 2022. DOI: 10.3390/nu14020269. Acesso em: 6 maio 2025.
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GARG, Mayur; HENDY, Philip; DING, John Nik; SHAW, Sophie; HOLD, Georgina; HART, Ailsa. The effect of vitamin D on intestinal inflammation and faecal microbiota in patients with ulcerative colitis. Journal of Crohn's & Colitis, Oxford, v. 12, n. 8, p. 963–972, 2018. DOI: 10.1093/ecco-jcc/jjy052. Acesso em: 6 maio 2025
Ítalo Garcia
Nutricionista | Membro do Conselho Científico da DII Brasil
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